segunda-feira, 30 de abril de 2012

Vidas Secas - Graciliano Ramos

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Biografia do Autor

Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã e A Tarde", passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927.
Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu "Memórias do Cárcere", um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro.
Graciliano estreou em 1933 com "Caetés", mas é São Berdado, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram "Angustia" (1936) e Vidas Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis.
Podemos justificar isto com passagens do texto:
"Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos."
"A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas"
"Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento..."
"Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus       pavores".

ESTUDO DOS PERSONAGENS

Baleia - cadela da família, tratado como gente, muito querido pelas crianças.
Sinhá Vitória - mulher de Fabiano, sofrida, mãe de 2 filhos, lutadora e inconformada com a miséria em que vivem, trabalha muito na vida.
Fabiano - nordestino pobre, ignorante que desesperadamente procura trabalho, bebe muito e perde dinheiro no jogo.
Filhos - crianças pobres sofridas e que não tem noção da própria miséria que vivem.
Patrão - contratou Fabiano para trabalhar em sua fazenda, era desonesto e explorava os empregados.
Outros personagens: o soldado, seu Inácio (dono do bar).

ESTUDO DA LINGUAGEM

Tipo de discurso: indireto livre
Foco narrativo: terceira pessoa
Adjetivos, figuras de linguagem:
Metáfora: " - você é um bicho, Fabiano".
Prosopopéia: compara Baleia como gente

ANÁLISE DAS IDÉIAS

Comentário Crítico:
Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira não só da época em que o livro foi escrito, mas como nos dias de hoje tais como injustiça social, miséria, fome, desigualdade, seca, o que nos remete a idéia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.

RESUMO DA OBRA

Mudança
Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam numa peregrinação silenciosa _ _ . O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe  dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta _ .
A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agora sem a companhia do outro animal da família, um papagaio, que fora sacrificado na véspera a fim de aplacar a fome que se abatia sobre aquelas pessoas. Na verdade, era um papagaio estranho, que pouco falava, talvez porque convivesse com gente que também falava pouco _ _ .
Errando por caminhos incertos, Fabiano e família encontram uma fazenda completamente abandonada. Surge a intenção de se fixar por ali. Baleia aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus donos. Haveria comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama, Fabiano consegue água. Há uma alegria em seu coração, novos ventos parecem soprar para a sua família. Pensa em Seu Tomás da bolandeira.  Pensa na mulher e nos filhos.
A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de felicidade ao grupo. No céu, já escuro, uma nuvem - sempre um sinal de esperança. Fabiano deseja estabelecer-se naquela fazenda. Será o dono dela. A vida melhorará para todos _ .
Fabiano  
Em vão Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da empreitada, ele está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando fome, quando da chegada àquela fazenda. Estavam bem agora _ _ . Fabiano se orgulha de vencer as dificuldades tal qual um bicho. Agora ele era um vaqueiro, apesar de não ter um lugar próprio para morar. A fazenda aparentemente abandonada tinha um dono, que logo aparecera e reclamara a posse do local. A solução foi ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Na verdade, era uma situação triste, típica de quem não tem nada e vive errante.  Sentiu-se novamente um animal, agora com uma conotação negativa. Pouco falava, admirava e tentava imitar a fala difícil das pessoas da cidade. Era um bicho _ .
A uma pergunta de um dos filhos, Fabiano irrita-se. Para que perguntar as coisas? Conversaria com Sinha Vitória sobre isso. Essas coisas de pensamento não levavam a nada. Seu Tomás da bolandeira, apesar de admirado por Fabiano pelas suas palavras difíceis, não acabara como todo mundo? As palavras, as idéias, seduziam e cansavam Fabiano.
Pensou na brutalidade do patrão, a tratá-lo como um traste. Pensou em Sinha Vitória e seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira. Eles não poderiam ter esse luxo, cambembes que eram. Sentiu-se confuso. Era um forte ou um fraco, um homem ou um bicho _ ? Sentia, por vezes, ímpeto de lutador e fraqueza de derrotado.
Lembrando dos meninos, novamente, achou que, quando as coisas melhorassem, eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas de pensar. Por ora, importante era sobreviver. Enquanto as coisas não melhorassem, falaria com Sinha Vitória sobre a educação dos pequenos.
Cadeia
Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita, resolve beber um pouco de pinga  na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que irrita o soldado, que provoca Fabiano quando esse está de partida. A idéia do jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido. Fabiano, agora, pensava em como enganar Sinha Vitória, mas a dificuldade de engendrar um plano o atormentava.
O soldado, provocador, encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, agüenta os insultos até o possível, terminando por xingar a mãe do soldado amarelo. Destacamento à sua volta. Cadeia. Fabiano é empurrado, humilhado publicamente.
No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Não fizera nada, se quisesse até bateria no mirrado amarelo, mas ficara quieto. Em meio a rudes indagações, enfureceu-se, acalmou-se, protestou inocência _ . Amolou-se com o bêbado e com a quenga que estavam em outra cela. Pensou na família. Se não fosse Sinha Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira por ali mesmo. Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto? Arquitetou vinganças, gritou com os outros presos e, no meio de sua incompreensão com os fatos, sentiu a família como um peso a carregar _ .
Sinha Vitória
Naquele dia, Sinha Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama de varas era o motivo de sua zanga. Falara pela manhã, mais uma vez, com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Queria uma cama de lastro de couro, como a de Seu Tomás da bolandeira, como a de pessoas normais.
Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama decente e, em meio a uma briga por causa das "extravagâncias" de cada um, Sinha Vitória certa vez ouviu Fabiano dizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles sapatos de verniz, caminhando como um papagaio, trôpega, manca. A comparação machucou-a _ .
Agora, ela irritava-se com o ronco de Fabiano ao lembrar-se de suas palavras. Circulando pela casa, fazia suas tarefas em meio a reza e a atenção ao que acontecia lá fora. Por pensar ainda na cama e na comparação maldosa de Fabiano, quase esqueceu de pôr água na comida. Veio-lhe a lembrança do bebedouro em que só havia lama. Medo da seca. Olhou de novo para seus pés e inevitavelmente achou Fabiano mau _ . Pensou no papagaio e sentiu pena dele _ .
Lá fora, os meninos brincavam em meio à sujeira. Dentro de casa, Fabiano roncava forte, seguro, o que indicava a Sinha Vitória que não deveria haver perigo algum por ali. A seca deveria estar longe _ . As coisas, agora, pareciam mais estáveis, apesar de toda a dificuldade. Lembrou-se de como haviam sofrido em suas andanças. Só faltava uma cama. No fundo, até mesmo Fabiano queria uma cama nova.
O Menino mais novo 
A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir a idéia. Fabiano, armado como vaqueiro, domava a égua brava com o auxílio de Sinha Vitória. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia _ . No dia seguinte, acordou disposto a imitar a façanha do pai. Para tanto, quis comunicar a intenção ao mano, mas evitou, com medo de ser ridicularizado.
Quando as cabras foram ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e por Baleia,  o pequeno tomou o bode como alvo de sua ação. Sentia-se altivo como Fabiano quando montava. No bebedouro, o garoto despencou da ribanceira sobre o animal, que o repeliu. Insistente, tentou se aprumar mas foi sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixou, tonto, estatelado ao chão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo espetáculo, Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura _ . Fatalmente seria repreendido pelos pais. Retirou-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de que seria grande, usaria roupas de vaqueiro, fumaria cigarros e faria coisas que deixariam Baleia e o irmão admirados.
O Menino mais velho
Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno. Perguntou à Sinha Vitória, vaga na resposta. Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinha Vitória, indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e fugiu indignado. Baleia fez-lhe companhia tentando alegrá-lo naquela hora difícil.
Decidiu contar à cachorrinha uma história, mas o seu vocabulário era muito restrito, quase igual ao do papagaio que morrera na viagem _ . Só Baleia era sua amiga naquele momento. Por que tanta zanga com uma palavra tão bonita ? A culpa era de Sinha Terta, que usara aquela palavra na véspera, maravilhando o ouvido atento do garoto mais velho.
Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Como poderiam existir estrelas? Pensou novamente no inferno. Deveria ser, sim, um lugar ruim e perigoso, cheio de jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha da faca _ . Sempre intrigado, abraçou-se à Baleia como refúgio _ .
Inverno
Todos estavam reunidos em volta do fogo, procurando aplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitava a paisagem fora da casa. Chegara o inverno, e isso reunia a família próxima à fogueira. Pai e mãe conversavam daquele jeito de sempre, estranho, e os meninos, deitados, ficavam ouvindo as histórias inventadas por Fabiano, de feitos que ele nunca tinha realizado, aventuras nunca vividas. Quando o mais velho levantou-se para buscar mais lenha, foi repreendido severamente pelo pai, aborrecido pela interrupção de sua narrativa.

Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suas façanhas _ . A chuva tinha vindo em boa hora. Após a humilhação na cidade, decidira que, com a chegada da seca, abandonaria a família e partiria para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessassem o caminho. A chegada das águas interrompera aqueles planos sinistros. Em meio à narrativa empolgada, Fabiano imaginava que as coisas melhorariam a partir dali; quem sabe, Sinha Vitória até pudesse ter a cama tão desejada.A chuva dava à família a certeza de que a seca não chegaria por enquanto. Isso alegrava Fabiano. Sinha Vitória, porém, temia por uma inundação que os fizesse subir ao morro, novamente errantes. A água, lá fora, ampliava sua invasão.
Para o filho mais novo, o escuro e as sombras geradas pela fogueira faziam da imagem do pai algo grotesco, exagerado. Para o mais velho, a alteração feita por Fabiano na história que contava era motivo de desconfiança. Algo não cheirava bem naquele enredo _ . Sempre pensativo, o menino mais velho dormiu pensando na falha do pai e nos sapos que estariam lá fora, no frio.
Baleia, incomodada com a arenga de Fabiano, procurava sossego naquela paisagem interior. Queria dormir em paz, ouvindo o barulho de fora _ .
Festa
A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo _ .
Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinha Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.
A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como Sinha Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga _ . Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão, gritava, provocava um inimigo imaginário _ . Queria bater em alguém, poderia matar se fosse o caso _ . Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.
Sinha Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de seu Tomas da bolandeira .
Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande. Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas _ ?
Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.
Baleia
Pêlos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços debilitaram Baleia de tal modo que Fabiano achou que ela estivesse com raiva. Resolveu sacrificá-la. Sinha Vitória recolheu os meninos, desconfiados,  a fim de evitar-lhes a cena.
Baleia era considerada como um membro da família, por isso os meninos protestaram, tentando sair ao terreiro para impedir a trágica atitude do pai. Sinha Vitória lutava com os pequenos, porque aquilo era necessário, mas aos primeiros movimentos do marido para a execução, lamentou o fato de que ele não tivesse esperado mais para confirmar a doença da cachorrinha.
Ao primeiro tiro, que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma perna, as crianças começaram a chorar desesperadamente.
Começou, lá fora, o jogo estratégico da caça e do caçador. Baleia sentia o fim próximo, tentava esconder-se e até desejou morder Fabiano. Um nevoeiro turvava a visão da cachorrinha, havia um cheiro bom de preás. Em meio à agonia, tinha raiva de Fabiano, mas também o via como o companheiro de muito tempo. A vigilância às cabras, Fabiano, Sinha Vitória e as crianças surgiam à Baleia em meio a uma inundação de preás que invadiam a cozinha _ . Dores e arrepios. Sono. A morte estava chegando para Baleia. 
Contas
Fabiano retirava para si parte do que rendiam os cabritos e os bezerros. Na hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tinha a sensação de que havia sido enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não conseguia dinheiro e endividava-se.
Naquele dia, mais uma vez Fabiano pedira a Sinha Vitória para que ela fizesse as contas. O patrão, novamente, mostrou-lhe outros números. Os juros causavam a diferença, explicava o outro. Fabiano reclamou, havia engano, sim senhor, e aí foi o patrão quem estrilou. Se ele desconfiava, que fosse procurar outro emprego. Submisso, Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado, pensando mesmo que Sinha Vitória era quem errara.
Na rua, voltou-lhe a raiva. Lembrou-se do dia em que fora vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigira o pagamento do imposto sobre a venda. Fabiano desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi a uma outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos _ .
Pensou na dificuldade de sua vida. Bom seria se pudesse largar aquela exploração. Mas não podia! Seu destino era trabalhar para os outros, assim como fora com seu pai e seu avô.
As notas em sua mão impressionavam-no. "Juros", palavra difícil que os homens usavam quando queriam enganar os outros. Era sempre assim: bastavam palavras difíceis para lograr os menos espertos. Contou e recontou o dinheiro com raiva de todas aquelas pessoas da cidade. Sinha Vitória é que entendia seus pensamentos.
Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio e tomar uma pinga. Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiu ir para casa. o céu, várias estrelas. Deixou de lado a lembrança dos inimigos e pensou na família. Sentiu dó da cachorra Baleia. Ela era um membro da família.
O Soldado Amarelo
Procurando uma égua fugida, Fabiano meteu-se por uma vereda e teve o cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começou a cortar as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimento da busca. Nesse momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás _ . O cruzar de olhos e o reconhecimento durou fração de segundos. O suficiente para que Fabiano esfolasse o inimigo. O soldado claramente tremia de medo. Também reconhecera o desafeto antigo e pressentia o perigo.
Fabiano irritou-se com a cena. O outro era um nadica. Poderia matá-lo com as mãos, sem armas, se quisesse. A fragilidade do outro aos poucos foi aplacando a raiva de Fabiano. Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a noite na cadeia se não tivesse xingado a mãe do amarelo. No meio daquela paisagem isolada e hostil, só os dois, e se ele pedisse passagem ao soldado? Aproximou-se do outro pensando que já tinha sido mais valente, mais ousado. Na verdade, na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-se amedrontado. Se ele era um homem de bem, para que arruinar a sua vida matando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior.
Sentindo o inimigo acovardado, o soldado ganhou força. Avançou firme e perguntou o caminho. Fabiano tirou o chapéu numa reverência e ainda ensinou o caminho ao amarelo.
O Mundo Coberto de Penas
A invasão daquele bando de aves denunciava a chegada da seca. Roubavam a água do gado, matariam bois e cabras. Sinha Vitória inquietou-se. Fabiano quis ignorar, mas não pôde; a mulher tinha razão. Caminhou até o bebedouro, onde as aves confirmavam o anúncio da seca. Eram muitas. Um tiro de espingarda eliminou cinco, seis delas, mas eram muitas. Fabiano tinha certeza, agora, de uma nova peregrinação, uma nova fuga.
Era só desgraça atrás de desgraça. Sempre fugido, sempre pequeno. Fabiano não se conformava, pensava com raiva no soldado amarelo, achava-se um covarde, um fraco. Irado, matou mais e mais aves. Serviriam de comida, mas até quando ? Quem sabe a seca não chegasse...Era sempre uma esperança. Mas o céu escuro de arribações só confirmava a triste situação _ . Elas cobriam o mundo de penas, matando o gado, tocando a ele e à família dali, quem sabe comendo-os.
Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusão de imagens em sua cabeça. Aquele lugar não era bom de se viver. Lembrou-se de Baleia, tentou se convencer de que não fizera errado em matá-la, pensou de novo na família e no que as arribações representavam. Sim, era necessário ir embora daquele lugar maldito _ . Sinha Vitória era inteligente, saberia entender a urgência dos fatos.
Fuga
O céu muito azul, as últimas arribações e os animais em estado de miséria indicavam a Fabiano que a permanência naquela fazenda estava esgotada. Chegou um ponto em que, dos animais, só sobrou um bezerro, que foi morto para servir de comida na viagem que se faria no dia seguinte.
Partiram de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho era o do sul. O grupo era o mesmo que errava como das outras vezes. Fabiano, no fundo, não queria partir, mas as circunstâncias convenciam-no da necessidade.
A vermelhidão do céu, o azul que viria depois assustavam Fabiano _ . Baleia era uma imagem constante em seus confusos pensamentos. Sinha Vitória também fraquejava. Queria, precisava falar _ . Aproximou-se do marido e disse coisas desconexas, que foram respondidas no mesmo nível de atrapalhação.

Na verdade, ele gostou que ela tivesse puxado conversa. Ela tentou animar o marido, quem sabe a vida fosse melhor, longe dali, com uma nova ocupação para ele. Marido e mulher elogiam-se mutuamente; ele é forte, agüenta caminhar léguas, ela, tem pernas grossas e nádegas volumosas, agüenta também. A cidade, talvez, fosse melhor. Até uma cama poderiam arranjar. Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos _ ?
Os meninos, longe, despertavam especulações ao casal. O que seriam quando crescessem? Sinha Vitória não queria que fossem vaqueiros. O cansaço ia chegando à medida que avançava a caminhada, e assim houve uma parada para descanso. Novamente marido e mulher conversavam, fazendo planos, temendo o mau agouro das aves que voavam no céu.
Sinha Vitória acordou os pequenos, que dormiam, e seguiu-se viagem. Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Era forte mesmo! Assim, a cada passo arrastado do grupo um mundo de novas perspectivas ia sendo criado. Sinha Vitória falava e estimulava Fabiano. Sim, deveria haveria uma nova terra, cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles.

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De: Richard Wendell 3B

Jc - Música

Já estavam com saudades...

Dominó - Sucesso Anos 80
Dominó é uma boy band brasileira que teve seu auge nos anos 80 e depois no final dos anos 90. Foi criado pela produtora do apresentador Gugu Liberato. Venderam cerca de 6 milhões de discos no Brasil nos anos 80. A formação original contava com Afonso Nigro, Nill, Marcos Quintela e Marcelo Rodrigues. Os maiores sucessos foram "Ela Não Gosta de Mim", "Companheiro", ""P" da Vida", "Manequim" e "Com Todos Menos Comigo".
Entre 1992 e 1995, o ator e apresentador Rodrigo Faro fez parte do grupo e em 1997, a formação de Rodrigo Phavanello, Rodriguinho, Cristiano Garcia e Héber Albêncio fizeram sucesso com a canção "Baila, Baila Comigo".


Grupo Dominó - Manequim


Primórdios

Concebido nos moldes da boy band portorriquenha Menudo, apareceu em 1984, com o hit "Companheiro". Ao mesmo tempo em que o Menudo estava estourado no Brasil, o então apresentador do programa Viva a NoiteAugusto Liberato (Gugu), através de sua agênciaPromoart, resolveu formar uma versão nacionalizada do grupo. Para a formação do grupo, diversos garotos com idades entre 14 e 15 anos realizaram testes nos quais precisavam saber cantar e dançar. Os selecionados foram Affonso Celso Lucatelli Nigro (Afonso Nigro), Lenilson dos Santos (Nill), Marcos Roberto Quintela (Marcos) e Marcelo Henrique Rodrigues (Marcelo). Ainda em 1984, o grupo lançou um compacto pela CBS Discos com duas versões de sucessos do grupo mexicano Timbiriche: "Ela Não Gosta de Mim" e "Companheiro", que foi a primeira música a estourar nas rádios, com direito a videoclipe lançado no programa global Fantástico.

Grupo Dominó - Companheiro  


Sucesso internacional e a "dominómania"

Em 1985, quando o Dominó já era uma febre, o grupo lançou seu primeiro LP pela CBS e vinha com, além das famosas "Companheiro" e "Ela Não Gosta de Mim", a música "Ainda Sou Você", single desse álbum. Além disso, contava com a participação especial do grupo Balão Mágico nas faixas "Chega Mais um Pouco" e "Fim de Semana". Em 1986, além de ser presença constante em programas de TV, principalmente da TVS, o grupo ganha um especial da emissora em um resort. No mesmo ano o Dominó lança um disco em espanhol e estoura no mercado latino. Esse LP tinha uma regravação da música "Lindo Balão Azul", de Guilherme Arantes. Por aqui, o segundo álbumvinha puxado pelos sucessos "Guerreiros", "Mariá", "Amor e Música" e "Jura de Amor".
Em 1987, o Dominó já tinha três anos de estrada e um enorme sucesso de vendagens, público e crítica. O terceiro LP é o ápice da "dominómania" que assolava o país. Esse disco contou com sucessos como ""P" da Vida", que vendeu muito em seu lançamento, seguido de "Manequim" e "Medusa". Nesse mesmo ano, eles participaram do filme Os Fantasmas Trapalhões juntamente com seu padrinho e empresário Gugu Liberato. Em 1988, o "álbum preto", como é chamado, mostra uma fase de amadurecimento do grupo e traz músicas de caráter mais reflexivo. Esse LP trouxe os sucessos "Com Todos Menos Comigo", "Bruta Ansiedade" e "As Palavras", com a participação especial de Angélica, na época apresentadora dos programas Clube da Criança e Milk Shake, na Rede Manchete. Nesse mesmo ano o quarteto ainda participou de dois filmes: Os Heróis Trapalhões - Uma Aventura na Selva e Os Trapalhões na Terra dos Monstros, onde cantam a canção "Paraíso". Já venderam cerca de 6 milhões de discos em todo o Brasil.

Ex-integrantes





Formação original
  • Afonso Nigro (1984-1991)
  • Nill (Lenilson dos Santos) (1984-1989)
  • Marcos Quintela (1984-1993)
  • Marcelo Rodrigues (1984-1993)
Outros
  • Rodrigo Faro (1992-1995)
  • Ítalo Coutinho (1992-1995)
  • Klaus Hee (1993-1995)
  • Fábio (1993-1995)
  • Ricardo (1995)
  • Valmir (1995)
  • Rodrigo Phavanello (1997-2001)
  • Rodrigo Lázaro de Paula (Rodriguinho) (1997-2001)
  • Cristiano Momense Garcia (1997-2001)
  • Héber Rodrigues Albêncio (1997-2001)
  • Mike Eversong (2003)
  • Ricky Fell (2003)
  • Diego Pompeu (2003)
  • Julio Rua (2003)
  • Leandro Lemos (2003-2008)
  • Arthur Cezar (2008)
  • Alexandre Albertoni (2008)
  • Isaac (2008)
  • Rafael Pires (2008)
  • Vinícius (2008)
  • Thalis (2008)
  • Jojo (2008)
  • Paulo Damazio (2008-2009)
  • Leandro Naiss (2008-2009)
  • Rachid Camargo (2008-2009)
  • Thiago Ruffineli (2008-2009)

[editar]Discografia

Álbuns

[editar]Coletâneas

[editar]Singles

  • "Ela Não Gosta de Mim"
  • "Companheiro"
  • "Ainda Sou Voçê"
  • "Vem Pra Mim"
  • "Ei! Garota"
  • "A Moto"
  • "Guerreiros"
  • "Mariá"
  • "Jura de Amor"
  • "Amor e Música"
  • "Nada Que Eu Quero Mais"
  • "Dançando Com Ela"
  • ""P" da Vida"
  • "Manequim"
  • "Medusa"
  • "Tudo a Ver Com o Teu Olhar"
  • "Linha e Carretel"
  • "Com Todos Menos Comigo"
  • "As Palavras" (com Angélica)
  • "Dono de Mim"
  • "Nada Pra Mim"
  • "Bruta Ansiedade"
  • "Maria"
  • "Felicidade Já"
  • "Leilão"
  • "O Que Eu Te Ponho"
  • "Sem Compromisso" (com Mara Maravilha)
  • "Bum Bum"
  • "Vem Provar"
  • "Oh! Carol"
  • "Baila, Baila Comigo"
  • "Estoy Queriendo Contigo"
  • "Diz Que Sim"
  • "Coração Parou"
  • "Baby"
  • "Com Todos Menos Comigo" (reedição)
  • "Vem Ver"

[editar]Filmografia

[editar]Vídeo Clipes

  • Companheiro (1984)
  • Jura de Amor (1985)
  • Guerreiros (1986)
  • Manequim (1987)
  • "P" da Vida (1987)
  • Com Todos Menos Comigo (1987)
  • Maria (1990)
  • O Que Eu Te Ponho (1992)
  • Baila, Baila Comigo (1997)
  • Diz Que Sim (1999)
  • La Bomba (2001)


De: Richard Wendell - 3B

domingo, 29 de abril de 2012

Jc Esporte - Rendimento Escolar - Educação Física

Com a chegada de novos equipamentos (cama elástica) para os treinos realizados no período da tarde, os alunos se alegram em receber este equipamento para saltos com mais força. Rosana - Ed. Física, diz ter gostado muito do aparelho, pois a galera do esporte se empolgara a frequentar mais vezes os jogos. 



Novos equipamentos, Esporte - Jc

Aula teórica realizada com os alunos do 3º B 

Grupos de trabalho relacionado ao esporte Jc

Rosana - Ed. Física, nos explica sobre o assunto

Um dos grupos a se apresentarem

Jc Esporte
De: Richard Wendell 3ºB

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Plutão.

Eu o vejo! Sim, eu o vejo.

O vejo no bares, nos livros, nas árvores,
nas ruas das pacatas cidades,
nas amizades feitas com tanta facilidade.
O vejo nos tons de cinza e marrom
e também o vejo na chuva fina — aquelas,
que deixa a gente meio doente.
O vejo em presságios de dias bons
e na ventania que leva minhas incertezas
e traz um pouco de saudade.

E eu o sinto.

O sinto no dedilhar de violão, na nota entoada,
no verso recitado e na palavra cantada,
o sinto no corte do dedo ao tentar cortar uma maçã,
no escorrer de uma lágrima, no nascer de uma manhã,
no martelar infinito da dúvida
de como seria se não o parasse para conversar aquela tarde. 

E eu o busco.

O busco no vazio de mim e nas multidões,
nos meus sorrisos amarelos, na pressa de partir
em meio aos números, nos e-mails dos cartões,
e na vontade de sumir.
(De voar pra Plutão e me instalar lá, com muitos cobertores felpudos.)


      Será que ele está lá Plutão? Com cobertores e chá quente?
                   — Não sei, não se pode viver em Plutão.
           Vamos? Quem sabe o encontro passeando por lá...
               ... e escondendo minha vontade de escrever sobre a gente.


                                                                  Ana Eduarda 3º A

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Trotes

O trote no Terceiro Ano é quase que indispensável para os alunos, é o ultimo ano e queremos aproveitar o máximo do tempo juntos, é claro. Mas, para que serve o trote?
Inicialmente, essa "brincadeira" serve para arrecadar dinheiro para a formatura e para unir cada vez mais os alunos. Diferente das universidades (em que os trotes são conhecidos como um rito de passagem e, algumas vezes, violentos [para ver mais sobre clique aqui]), os trotes do Ensino Médio visam a comemoração dos alunos em seu ultimo ano.

Abaixo, algumas fotos do Terceiro Ano de 2012

3º A - Crianças Felizes!
Trote - Troca de Sexo

Trote - Troca de Sexo
Trote - Crianças


                                                                      Ana Eduarda  3º A

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A garota abandonada pelas palavras.

Ela estava lá, parada, rabiscando um caderno e puxando alguns fios de cabelo.  O seu rosto estava marcado com maquiagem borrada pelas lágrimas. Eu a observava há alguns dias. Ela sempre sentava perto da janela, pedia um café e um biscoito. 
 A ponta da caneta estava gasta, o papel rabiscado e meio molhado. O que havia com ela?
Sentei-me ao seu lado, pedi à garçonete o mesmo que ela pedira. Ela parou de escrever e olhou pra cima, meio confusa, mas logo um brilho surgiu dentro daqueles olhos negros e interrogativos.  Ela sussurrou em um tom alegre:
– Que bom que você apareceu.
Surpreendi-me ao ouvir aquele sussurro tão espontâneo. “Ela me conhece?”, pensei. Fiquei olhando em seus olhos e ela mordeu os lábios, deu um sorriso, querendo se desculpar, e falou um pouquinho mais alto.
– As palavras. Elas sumiram de mim! Simplesmente me deixaram...
– Como assim?
– Eu escrevia, eu poetizava, eu... Eu não sei mais o que fazer, elas me deixaram.
– As palavras?
– Sim, as palavras.
Ela era maluca! Era só isso o que eu conseguia imaginar. Doida varrida! Como palavras podiam sumir? Mas ela estava chorando, estava aflita, aquilo devia ser sério.
– Ok, -- bati na mesa – vamos procurá-las!
– Já procurei um todo lugar – ela soltou a confidência aos soluços.
– NÃO! Pare de chorar! Eu não gosto de ver você chorando...
– Você sempre me viu chorando aqui na lanchonete.
Encarei.
 – Sim, eu percebi que você estava me observando e, se você não viesse logo, eu mesma iria sentar ao seu lado. Puxa vida, você é meio demorado, indeciso.
Ri da garota estranha que acabara de contar o meu maior segredo. Ela era incrível.
– Onde você acha que as perdeu?
– Perto das árvores, elas gostam de árvores.
– Elas... Gostam de árvores?
– Sim, elas fluem com mais facilidade perto das árvores. E do riacho, é claro.
Árvores, riachos. O que mais ela iria citar? Pássaros?
– Elas gostam de pássaros, mas preferem os gatos.
Tremi um pouco na base, ela leu meu pensamento ou já estávamos interligados?
– Então vamos para perto das árvores e do riacho. – levantei.
Ela levantou, pagou a conta e foi andando.  Chegamos perto de um riacho, ela sentou-se e pegou um papel. Rabiscou, escreveu, rasgou, me olhou... Nada.
– Elas sumiram...
– Alguém pode ter roubado.
– Sim! – Olhou rápida e bruscamente pra mim. – Alguém deve tê-las roubado de mim.
– E quem poderia ser?
– Aquele para quem eu escrevia. – a garota começou a chorar.
Fiquei confuso, como devolver as palavras a alguém? Coloquei as mãos na cabeça, respirei fundo e chorei junto. Aquele desespero dela tornou-se meu. Eu queria de alguma forma poder encontrar aquelas palavras. E que diabos de palavras ela estava falando? Existiam tantas.
De repente, a garota parou de chorar. Estalou os olhos nos meus, que estavam molhados, ajoelhou-se mais perto e pegou uma lágrima que escorria do canto dos meus olhos.
– Por que está chorando?
– Não sei – me rendi, soluçando – Por algum motivo, eu quero encontrar essas palavras que você reclama tanto. Eu sei lá! Vi você chorando e quis ajudá-la. Eu não sou assim, não me importo tanto com as pessoas, mas você me deixou preocupado. Sei que deve estar me achando louco, mas... Mas eu gosto de você. Eu gostei daquele jeito que você veio falar comigo, gostei dessas conversinhas malucas, só não gostei daquele desespero que eu via toda semana na lanchonete. Desculp --
A garota encostou os lábios dela nos meus.
Sorriu, pegou o papel e a caneta, rabiscou várias palavras nele e me entregou. Levantou-me e me abraçou bem apertado.  E, com um sorriso, se afastou cantarolando.
Daquela interrupção até eu não conseguir mais vê-la, me mantive imóvel. E não era por não querer correr atrás dela, era por não conseguir me mexer.
Depois que a garota desapareceu consegui ler o papel rabiscado.
“Obrigada, por me devolver as palavras. Agora estou as sentindo comigo de novo. Aquele que me roubou, bem, esqueça-se dele. Ele não merecia nem uma vírgula. Já você, estranho da lanchonete, merece até um livro por se importar com uma maluca abandonada. Até mais ver.”
O nome da garota abandonada por palavras era Alice Bittencourt. Como eu soube?
Anos se passaram e uma tarde, enquanto eu andava a procura de livros novos numa livraria antiga, me interessei por um livro. O título era “Riacho, árvore e palavras perdidas”. Li a sinopse, abri o livro e vi uma dedicatória: “Para o homem da lanchonete.”. Ri silenciosamente com lágrimas de saudade nos olhos. Alice cumprira o que havia escrito no bilhete.

Eu a devolvi as palavras, ela me presenteou com a maioria delas.

                                                                       Ana Eduarda 3ª A